Quando trabalhei em Goiânia, no jornal Diário da Manhã, costumava fazer reportagens policiais. Com isso, frequentemente tinha acesso a números da Secretaria de Segurança Pública do Estado. E ao longo do tempo, descobri uma coisa curiosa: no quesito violência, as duas regiões de Goiás que mais dão trabalho às autoridades são a Grande Goiânia e o Entorno do DF. No entanto, a maior parte dos investimentos estaduais — infraestrutura, efetivo, logística etc — fica na região metropolitana da capital. O Entorno é uma terra de ninguém.
De acordo com a projeção do IBGE do ano passado, vivem nas 22 cidades em volta do Distrito Federal pouco mais de 1,3 milhão de pessoas. É o mesmo número de habitantes do município de Goiânia. Mas basta dar um pulo em algumas localidades dessa região, como Luziânia, Valparaíso, Cidade Ocidental, Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto e Águas Lindas, pra sacar a enorme diferença de tratamento que o governo estadual dá pra capital e pro Entorno.
Um convênio firmado entre as secretarias de Segurança do DF e de Goiás permite que policiais militares das cidades limítrofes atuem em ambos estados. Esse acordo foi tutelado pelo Ministério da Justiça. A Caesb, companhia de águas de Brasília, atua no município de Águas Lindas pra garantir o abastecimento aos moradores daquela cidade. Um contrato assinado entre o GDF e algumas prefeituras garante o repasse de verbas aplicadas em centros de saúde e hospitais da região — o GDF faz questão de injetar essa grana nas cidades vizinhas pra desafogar os hospitais da capital da república. Esses e outros acordos mostram o quanto essa gente do Entorno depende de outras instâncias de governo que não o de Goiás, o que reforça a impressão de abandono.
O episódio do sumiço de seis adolescentes no Parque Estrela D’alva, bairro de Luziânia, é mais um capítulo dessa triste novela sem fim: os garotos foram sumindo um a um e a polícia goiana, passados pouco mais de trinta dias do primeiro desaparecimento, não faz a mínima idéia do que possa ter acontecido. Pedofilia, sequestro, extermínio e trabalho escravo fazem parte das linhas de investigação oficial, mas repórteres que apuram o caso descobriram que os agentes estão fazendo é troça das mães dos meninos, dizendo que eles foram pular carnaval não sei onde, estão “com a namoradinha” ou fugiram de casa.
O caso exige a interferência da Polícia Federal — apesar de as autoridades goianas insistirem que dispõem de pessoal e estrutura pra prosseguir com as investigações. Mas é lógico que isso é apenas discurso. Tanto é que até hoje não há nada de concreto pra ser oferecido à opinião pública. É uma pena que em pleno século 21, os moradores de uma das regiões mais populosas do país ainda seja tratada pior que gado.
Enquanto isso, o governador Alcides Rodrigues está mais preocupado com sua guerrinha política e os acordos eleitorais pras eleições de outubro.

