EU NÃO QUERO MORAR NO ENTORNO

fevereiro 2, 2010 por longedomar

Quando trabalhei em Goiânia, no jornal Diário da Manhã, costumava fazer reportagens policiais. Com isso, frequentemente tinha acesso a números da Secretaria de Segurança Pública do Estado. E ao longo do tempo, descobri uma coisa curiosa: no quesito violência, as duas regiões de Goiás que mais dão trabalho às autoridades são a Grande Goiânia e o Entorno do DF. No entanto, a maior parte dos investimentos estaduais — infraestrutura, efetivo, logística etc — fica na região metropolitana da capital. O Entorno é uma terra de ninguém.

De acordo com a projeção do IBGE do ano passado, vivem nas 22 cidades em volta do Distrito Federal pouco mais de 1,3 milhão de pessoas. É o mesmo número de habitantes do município de Goiânia. Mas basta dar um pulo em algumas localidades dessa região, como Luziânia, Valparaíso, Cidade Ocidental, Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto e Águas Lindas, pra sacar a enorme diferença de tratamento que o governo estadual dá pra capital e pro Entorno.

Um convênio firmado entre as secretarias de Segurança do DF e de Goiás permite que policiais militares das cidades limítrofes atuem em ambos estados. Esse acordo foi tutelado pelo Ministério da Justiça. A Caesb, companhia de águas de Brasília, atua no município de Águas Lindas pra garantir o abastecimento aos moradores daquela cidade. Um contrato assinado entre o GDF e algumas prefeituras garante o repasse de verbas aplicadas em centros de saúde e hospitais da região — o GDF faz questão de injetar essa grana nas cidades vizinhas pra desafogar os hospitais da capital da república. Esses e outros acordos mostram o quanto essa gente do Entorno depende de outras instâncias de governo que não o de Goiás, o que reforça a impressão de abandono.

O episódio do sumiço de seis adolescentes no Parque Estrela D’alva, bairro de Luziânia, é mais um capítulo dessa triste novela sem fim: os garotos foram sumindo um a um e a polícia goiana, passados pouco mais de trinta dias do primeiro desaparecimento, não faz a mínima idéia do que possa ter acontecido. Pedofilia, sequestro, extermínio e trabalho escravo fazem parte das linhas de investigação oficial, mas repórteres que apuram o caso descobriram que os agentes estão fazendo é troça das mães dos meninos, dizendo que eles foram pular carnaval não sei onde, estão “com a namoradinha” ou fugiram de casa.

O caso exige a interferência da Polícia Federal — apesar de as autoridades goianas insistirem que dispõem de pessoal e estrutura pra prosseguir com as investigações. Mas é lógico que isso é apenas discurso. Tanto é que até hoje não há nada de concreto pra ser oferecido à opinião pública. É uma pena que em pleno século 21, os moradores de uma das regiões mais populosas do país ainda seja tratada pior que gado.

Enquanto isso, o governador Alcides Rodrigues está mais preocupado com sua guerrinha política e os acordos eleitorais pras eleições de outubro.

SAMBA DO AVIÃO (parte 2)

janeiro 30, 2010 por longedomar

O auto-falante (1) chama os passageiros do voo número tal da companhia tal com destino a tal cidade (2). É o meu voo. Estou sentado naquelas cadeiras desconfortáveis (3) esperando. A mocinha do sistema de som explica que a empresa dará prioridade a idosos, gestantes, mamães recentes etc.

Então, um grupo de velhinhos se dirige à entrada do portão de embarque. Formam uma fila e ficam lá esperando o portão se abrir. Os funcionários da companhia aérea estão do outro lado, naquele corredor de acesso ao avião, atarantados, andam de um lado pro outro feito baratas tontas. O portão demora a se abrir. Os velhinhos em pé, na fila. Eu, sentado. Passam-se cinco minutos. Dez. Quinze. Vinte minutos, o voo atrasa. Vinte e cinco minutos depois do aviso inicial, o portão se abre. Os idosos, cansados desta vida, ficaram esse tempo todo de pé, aguardando. Enquanto eu, trinta e poucos anos, novo, sadio, fiquei sentado.

Afinal, a fila andou. Como todos temos lugar marcado no avião, fiquei no conforto (4) da cadeira até a última chamada; só então me levantei, apresentei o cartão de embarque e entrei.  

(1) Auto-falante tem hífen? Mudaram as regras, nem sei mais.

(2) Cê acha que eu vou expor minha vida pessoal aqui na internet?

(3) Cadeiras toscas que a Infraero insiste em chamar de poltronas.

(4) Trata-se, evidentemente, de ironia do autor.

SAMBA DO AVIÃO

janeiro 22, 2010 por longedomar

Não suporto viajar de ônibus. Acho chato, demorado, desconfortável, além do que, demora muito mais, obviamente. Prefiro avião. E hoje, com as passagens relativamente mais baratas e com a acensão da classe média, ficou mais fácil voar.

Certa vez eu tava com uma dose de pressa e decidi ir de Brasília a Goiânia de avião. A viagem de carro entre as duas capitais demora umas duas horas e meia, mais ou menos — isso se você parar pra comer, for tranquilo, sem pressa nem correria. De ônibus são três horas e meia de estrada.

Cheguei ao aeroporto com quarenta minutos de antecedência. Me acomodei na sala de embarque: o voo atrasou meia hora. No ar foram 23 minutos. Em Goiânia, minha mala demorou quase meia hora pra aparecer na esteira. E o táxi que peguei pra chegar em casa ficou preso num engarrafamento enorme na Vila Nova.

Resultado: o tempo total de viagem foi de quase três horas.

O PROBLEMA DO MUNDO

janeiro 19, 2010 por longedomar

… é o tanto de gente que tem em cima dele.

2010, 2010

janeiro 2, 2010 por longedomar

Foi só eu dizer que o ano tava indo bem… em São Paulo um sujeito atira as duas filhas do viaduto e se joga na sequência; em Porto Alegre o cara taca a filha do décimo andar e repete o gesto. Como se não bastasse, a Jacinta inventa de morrer logo na virada do ano.

Jacinta, conhecida de alguns leitores deste blog; certamente deixará saudades. Chegou em nossa casa ainda jovem, no comecinho de 98. Portanto, contava atualmente pelo menos uns treze anos, já tinha vivido bem. No entanto, sempre será triste perder alguém da família, mesmo que esse alguém seja um cachorro vira-lata.

O mais estranho foi a forma. Como ela morreu. Em verdade, em verdade vos digo que não temos certeza que ela morreu. Não testemunhamos seu suspiro final, não vimos seu corpo já sem o hausto que o vivifica. Mas Jacinta já apresentava uma saúde frágil havia muitos meses. Nas últimas semanas não ouvia mais nada, se alimentava mal, ia trotar e tropeçava nas coisas, desconfiávamos que estivesse meio cega.

Na noite de reveillón, assustada com o foguetório, ela saiu de casa e não voltou mais. Simples assim. Saiu caminhando calmamente rua afora e passados dois dias, não deu sinal de vida.

Hoje à tarde, urubus sobrevoavam o bairro:  triste é o fim.

2010… 2010…

janeiro 2, 2010 por longedomar

Até aqui tudo bem.

Os mortos de sempre nas encostas de São Paulo, Rio e Minas… as videntes dizendo que vamos ganhar a Copa do Mundo… por enquanto o ano está igualzinho a todos os outros.

Perfeito.

POLÍCIA PODE TUDO

dezembro 27, 2009 por longedomar

Hoje pela manhã uma viatura da Polícia Militar trafegava calmamente pelo Eixão Norte, na altura da 14. Não seria nada de anormal não fosse domingo — quando a via é fechada ao trânsito de veículos automotores. Mas o carro da polícia era um veículo automotor. Portanto não poderia estar andando ali, em meio aos habitantes que faziam sua caminhada matinal e crianças estreando bicicletas trazidas por Papai Noel. A não ser que houvesse alguma situação fora do normal, mas eu fiquei observando um tempão e não vi nada de anormal. Então não entendi.

A propósito, outra coisa que nunca entendi: o tal “Eixão do Lazer”. Na cidade que tem a maior área verde por habitante no planeta o lazer tem que ser no asfalto?

DIZEM PRA VOCÊ RESPEITAR

dezembro 10, 2009 por longedomar

Uai, gente, a ditadura militar num tinha acabado?

Só faltou o Newton Cruz comandando a tropa.
Foto: “cortesia” de Iano Andrade (CB / DA Press)

BRASILEIRO

dezembro 8, 2009 por longedomar

Hoje: 15 anos sem Tom.

Eu sei que vou chorar a cada ausência tua

BROXANTE

dezembro 5, 2009 por longedomar

Por Marcelo Rubens Paiva.

“Me explicaram ontem o sucesso da saga CREPÚSCULO, que esgota livros  lota cinemas.

Fiquei chocado.

Trata-se da história de vampiros virgens, politicamente corretos e vegetarianos, escrita por uma autora conservadora MÓRMON.

O vampiro gato só vai morder e chupar o sangue da gatinha depois de se casar com ela, no TERCEIRO LIVRO. Apesar dos apelos dela no segundo livro.

Nem o Lobisomem papa a mocinha, por respeito aos bons valores do celibato. E não comem carne de animais, apenas chupam o sangue deles.

O livro-filme é adotado pela onda conservadora que varre a nova geração e retoma o tabu da virgindade.

É uma afronta ao espírito libertário e provocador do personagem vampiresco, que suga o sangue das virgens e as amaldiçoa, arquétipo europeu comum à civilização ocidental e à modernidade, síntese da luta desejo versus moral.

E o galã do filme é considerado o ator mais sexy do momento. Então as menininhas assistem Lua Nova, babam e se recolhem.

Ainda bem que eu vim de outra geração.

Viva MICKEY ROURKE!”

Fonte: blog.estadao.com/blog/marcelorubenspaiva

Eu queria lembrar ao Marcelo e aos leitores deste humilde porém honesto blog que há alguns meses esteve no Brasil um tal de Jonas Brothers, boy-band com três garotos bonitinhos, virgens, que prometem que só vão trepar (ou melhor, transar) depois do casamento. São filhos de um pastor norteamericano e andam fazendo um sucesso constrangedor. Mais um ícone dessa tal revolução careta, brega e atrasada, que renega a evolução do comportamento e enterra anos e anos de luta por mais liberdade e mais graça na vida.

Repito contigo, Marcelo: ainda bem que somos de outra geração!