A ideia era ótima. Mas o resultado foi triste. A “volta da Legião” ou o “tributo a Renato Russo” ou a “grande festa do rock Brasília” ou lá o que seja não passou de um espetáculo vergonhoso, onde sobraram a falta de profissionalismo da produção, desorganização e muito constrangimento.
Pra começar, não há Legião Urbana sem Renato Russo. Isso foi deixado claro pelo próprio Marcelo Bonfá no vídeo de abertura do show, que foi exibido no telão — a melhor coisa da apresentação, diga-se. Misturando imagens de shows, entrevistas, notícias da morte de Renato e os ensaios da banda que se apresentou domingo, com depoimentos do Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, o vídeo terminava com uma frase do ex-vocalista em algum show antigo: “na verdade, a Legião Urbana são vocês” — apenas uma licença poética retórica pra permitir que muita gente, inclusive alguns jornais sérios, apontassem o show como a “volta da Legião”. Ou seja, jogaram com a dubiedade.
Não li em nenhum jornal a informação de que a EMI — gravadora que detém os direitos sobre a obra da banda — só liberou oito músicas. Portanto, as escolhidas seriam as óbvias: “Pais e filhos”, “Que país é esse” etc. A banda de acompanhamento incluía três uruguaios: um no baixo, um nos teclados e outro na guitarra de apoio. De cara, André Gonzales, vocalista do Móveis Coloniais de Acaju, entrou cantando “Tempo perdido”. Pulava o tempo todo e fazia um gestinho meio ridículo com a mão pedindo pra galera acompanhar. Pedido inútil, todo mundo gritava a letra do começo ao fim. Em seguida, o uruguaio Sebastian Teysera, tentando disfarçar o portunhol, atacou “Quase sem querer”, com um solo “fodão” de guitarra no fim: gente, o Dado aprendeu a solar! Na sequência, Toni Platão, ex-vocalista do Hojerizah, interpretou “Eu sei”. Gostei dessa. E aí foi a vez de Marcelo Bonfá assumir os vocais de “Pais e filhos”. Gozado que ele também fazia o inútil pedido pra todo mundo cantar junto. Se não houvesse vocalista nenhum em qualquer das canções, o público entoaria as letras do mesmo jeito. Tem uma boa voz, é afinadinho o baterista.
Em “Ainda é cedo”, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone acompanharam a banda. No final, um duelo de guitarras entre o líder dos Paralamas e Dado Villa-Lobos, no melhor estilo “guitar hero”, descaracterizou completamente a música. A Legião nunca foi de solos, não era a praia da banda e essa era uma das características que me atraíam como fã e músico; o pós-punk dos anos 80 tinha uma guitarra mais minimalista, mais seca e limpa. Enfim… talvez essa seja uma discussão estética à parte, talvez eu esteja sendo muito ranzinza, mas em todos casos, achei desnecessário. Sem contar que a guitarra do Herbert estava altíssima, com distorção durante a música toda, incomodou um bocado. No final, Dado cantou um trecho de “Gimme Shelter”, dos Stones, o que Renato Russo sempre fazia.
E aqui eu aproveito o gancho pra falar da qualidade técnica do som. Os microfones falhavam direto, os PAs estavam com mau contato, a guitarra do Dado falhava, o que o deixava visivelmente irritado… sem contar outros probleminhas de produção de palco. Uma homenagem desse tamanho merecia um tratamento mais profissional.
O melhor de tudo, no entanto, foi o ”microfone do Renato”: um pedestal bem no centro do palco com uma rosa branca pendurada. O microfone estava desligado e todos os cantores convidados usavam os locais destinados a eles, ou seja, na “periferia” do palco. O centro estava simbolicamente reservado para o fantasma do ex-vocalista.
Pois quando entra Phelippe Seabra pra cantar “Geração coca-cola” — depois de outro uruguaio interpretar “Será” —, qual microfone que ele escolhe? Óbvio que foi o da rosa. Alertado discretamente por Dado, o vocalista da Plebe Rude mudou de lugar e bradou os versos do “hino punk contra a ditadura” — não sem antes destilar seu discurso com aquele verniz de esquerda de playboyzinho do Lago Norte.
Aí veio o grand finale. Óbvio, lógico, evidente que seria “Que país é esse” com todos os vocalistas no palco. Tava tão previsível isso. Um dos convidados pra esse momento foi Loro Jones, ex-guitarrista do Capital Inicial (banda que não esteve presente porque exigiu um cachê muito alto, embora a versão oficial seja que Dinho Ouro Preto pegou a tal gripe do porco). Loro protagonizou o momento mais bizarro e constrangedor: como tinha gente demais, não sobrava microfone pro pobre. Então, obviamente, ele se dirigiu ao microfone da rosa branca. Que estava desligado. Ele tentava ligar o bicho e nada. Bêbado que só, mexia, mexia e nada. Alguém no palco alertou o Loro e ele foi dividir o microfone com algum outro vocalista. Mas ele precisava de mais espaço: voltou a espantar o fantasma de Renato Russo no tal microfone central: mexia, bulia no bicho e nada. Isso tudo no meio da música. Nisso um roadie entrou no palco com aquele jeito de roadie — correndo agachadinho — e deu uma chamada no Loro, que ficou puto e mandou-lhe um safanão! Genial. No final, Seabra gritou algo como “Viva Legião! E viva a Plebe também, né, galera”. Dado completou dizendo que estava muito feliz por tocar de novo em sua cidade. A cidade que ele renegou durante vinte anos.
No fim das contas, as 30 e tantas mil pessoas que estavam na Esplanada adoraram. Elas estavam com sede disso e foi isso que a banda deu. A crédito da produção, deve se dizer que em nenhum momento eles anunciaram o show como a “volta da Legião”; sempre era a “atração surpresa” — embora, como eu já observei, houve um joguinho meio dúbio em cima disso. Teve gente chorando de emoção, adolescentes deslumbrados por estarem vendo a lendária “Legião”, trintões e quase-quarentões suspirando e lembrando os anos 80… foi uma celebração, uma festa, uma catarse. Pouco importavam os problemas técnicos e os deslizes imperdoáveis da produção. Menos ainda importava a filosofia equivocada de fazer um show-tributo com cara de “retorno” da banda. Pouco importava a escolha das músicas mais óbvias — aliás, importava sim, mas eu como fã ardoroso e fiel da Legião, escolheria outras, se fosse realmente obrigado a fazer um show desses. Parafraseando Paul McCartney, “enquanto Renato Russo estiver morto não há volta da Legião”. Mas o povo não tava nem aí pro espetáculo dantesco, vergonhoso, triste. Eu senti vergonha de assistir.
Mas tudo bem: deixa a galera ser feliz, mesmo que seja com pouca coisa. Repito: a ideia era ótima. Mas a catástrofe mostrou que se houvesse uma produção no mínimo profissional e umas correções de conceito, o resultado poderia ter sido bem melhor.
Sei que há problemas de relacionamento, mas o mais injustiçado da história toda foi o Renato Rocha. O cara que criou algumas das melhores linhas de baixo da história do rock brasileiro (ouça “O Reggae”, “Acrilic on canvas”, “Perdidos no espaço” e diga se não tenho razão) e que gravou os discos mais legais da Legião merecia no mínimo uma menção, quanto mais um convite pra participar de uma música que fosse. Serviria ao menos pra jogar pra plateia.
E no fim, o melhor comentário foi o de um amigo meu: “se chamasse o vocalista do Catedral pra substituir o Renato, seria perfeito”. Só mesmo com uma dose generosa de ironia pra aceitar uma homenagem desta. 
A foto é uma “cortesia” do Globonline; crédito para Licias Santos