Pra entrar no prédio, os porteiros pedem apresentação da identidade, anotam nome completo, endereço e telefone, além de tirar uma foto. Só falta revistarem a bolsa (como já aconteceu comigo num órgão público). Pego o elevador e subo até o sexto andar, numa repartição do governo.
Tudo é muito branco. As luzes, as paredes, as mesas, o chão clarinho, as janelas deixam entrar a luz cinzenta do dia nublado. Assepsia. Outro porteiro (cada pavimento tem um) me recebe, pede pra ver o crachá de visitante e me indica um corredor, que conduz a uma sala ampla.
Cinco funcionários trabalham. Um deles confere um processo. A outra passa folha por folha de outro processo, batendo um carimbo em cada uma delas. Um servidor digita lentamente enquanto lê algo no monitor. Os outros dois estão em frente a computadores. Ninguém me cumprimenta, ninguém oferece água ou café. Apenas um único bom dia seco, baixinho, desses que não se olha nos olhos.
Explico o que me leva àquela sala e menciono um nome. Após alguns segundos que me pareceram horas, uma funcionária se levanta calmamente da cadeira, vem, ouve meu caso com um olhar interrogativo e diz que naquela sala não tem ninguém com o nome que falei. Insisto que é ali mesmo que eu tinha que resolver o problema, apresento um número de processo. Ela pega o papel, olha com atenção por vários segundos e, enfim, me pede um tempinho.
Os minutos passam, em silêncio.
Em silêncio, passam-se os minutos.
Os servidores continuam imersos no trabalho.
Silenciosamente, os minutos vão se passando.
Até que: — Essa publicação aqui é só pro Diário Oficial? — pergunta a do carimbo. A frase foi lançada no ar, ela parecia estar falando consigo mesma. Ninguém responde.
Uns dois ou três minutos depois: — Hein? É só pro Diário Oficial ou é pra jornais também? — ela insiste, perguntando novamente para o nada.
— Cê sabe? — dessa vez ela se dirige ao do processo, que levanta a cabeça lentamente, olha pra colega e pergunta quase resumngando: — O quê?
Eu já estava na sala havia uns 20 minutos, esperando a moça buscar o tal processo que eu precisava conferir. Ao ver aquele diálogo quase surreal, fiquei imaginando como seria aguentar esse ambiente por oito horas diárias.
Provavelmente teria enlouquecido no segundo dia.




