DE CABEÇA PRA BAIXO

Novembro 9, 2009 por longedomar

Tudo que era pra ser dito sobre a loura da Uniban já o foi. Não quero ficar repetindo que a atitude dos alunos foi sexista, que a universidade transformou a garota em vítima… ou que ela merecia mesmo, procurou agora aguenta etc etc. Esse papo é tão anos 50… não vejo cabimento discutir pernas de fora em 2009.

Eu queria só atentar pra um detalhe que pelo visto passou despercebido da maioria das pessoas. Segundo o Ministério da Educação, a instituição paulista obteve nota 3 no Índice Geral de Cursos (IGC) de 2008 — o que faz com que a universidade em questão figure entre as piores do país.  

Se eu fosse estudante dessa Uniban… vamos supôr que eu fosse retardado mental e não desse conta de passar numa universidade de qualidade. Supondo que eu pagasse uma mensalidade caríssima pra estudar nessa pocilga, eu iria protestar. Iria protestar contra o fato de ter que deixar meu dinheiro numa instituição que oferece um ensino de péssima qualidade.

Mas parece que os alunos da tal universidade preferem protestar contra minissaia. Pensando bem, isso explica o Brasil. Afinal, como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.

FÉRIAS, 39 GRAUS

Novembro 6, 2009 por longedomar

Febre, dor de cabeça, tosse seca, dor no corpo, indisposição, cansaço, vontade de dormir dormir dormir… gengivite, sinusite, etceterite. Tirei férias pra ficar em casa deitado tomando remédio, pode? A gente ri pra não chorar.

Aí teve o hospital. Sabe como é, com febre a gente não brinca, inda mais com essa gripe do porco que andou grunhindo por aí, convém não facilitar, um médico sempre é aconselhável nesses casos. Lá fui eu pro pronto socorro. Fiz a ficha, passe pela burocracia e tudo mais. Me atenderam, expliquei o que era, recomendaram tais e tais medicamentos e que era pra eu esperar a enfermeira naquela salinha ali.

Naquela salinha ali tinha um rapaz duns vinte e poucos anos tomando soro na veia e lendo. Quando entrei, ele levantou a cabeça e ficou me olhando com cara de quem vai puxar conversa. Desviei o olhar, fingi que estava completamente distraído, em outro mundo, mas não adiantou.

— Boa noite! Tudo bem?

É o tipo de pergunta que o cara faz no hospital. Fiz cara de retardado e fiquei olhando pra ele, meio com vontade de rir… por fim não resisti.

— Ó, amigo… se estivesse tudo bem, juro que eu não estava aqui…

Rimos os dois e ele voltou à carga:

— O que você tem?

— Ah, nada sério. Só uma febre, mas deve ser coisa simples. Passa logo.

— Eu estou com suspeita de esclerose. Meu olho não está bem, aí vim fazer uns exames.

Arregalei o olho:

— Esclerose? Nessa idade?

— É… fazer o quê, né? Acontece. Mas ainda bem que Deus está no comando de tudo, coloquei nas mãos dele e agora é ver o que dá.

— …

— Deus não deixa nada de ruim acontecer àqueles quem o amam. [falou assim mesmo: "o amam". Eu não sabia que havia pessoas no Brasil que usavam esse pronome dessa maneira em conversas coloquiais.]

— Pois é.

— Sabe, Deus tem um plano pra mim. Eu acredito que se ele colocou essa provação na minha vida é porque existe um propósito.

— Sei.

— Do mesmo jeito, ele tem um plano pra você também. Se você quiser, pode ir na minha igreja amanhã…

— Olha, não vai dar. Amanhã eu tenho um compromisso. Dá licença, tenho que falar com a enfermeira.

E o esclerosado ficou lá na salinha.

O caso é que a gente vai ficando velho e perdendo a paciência com certas coisas.

PAIS & FILHOS

Outubro 9, 2009 por longedomar

Enrico e Enzo, esses dois da foto aí. Como hoje eu escutei uma musiquinha de natal em uma propaganda de televisão (juro), vamos entrar no clima. Enzo é o mais velho, de cabelos e olhos claros, a cara da mãe. Completa quatro anos em janeiro. Espoleta, genioso e inteligente, o garoto — assim como o Enrico — tem duas vovós Ana: Ana Amélia (materna) e Ana Maria (paterna). Pois um belo dia o pai falou que eles iam pra casa da vovó. Enzo perguntou qual das duas. O pai dele respondeu: “Vovó Ana Maria”.

Pausa.

Me diga, leitor: num país de retardados, de big brothers, de novelas, de funk e axé-music, onde a TV Globo domina as mentes e os corações… o que um garoto de três anos falaria? Com quem ele relacionaria o nome da avó materna?

Pois o Enzo olhou pro pai e perguntou: “Ana Maria? Igual Ana Maria Machado, que escreve livro?”

Meu sobrinho, orgulho do tio.

Enrico completou dois anos há duas semanas.  Educado, docinho total, fala baixinho e acaba de descobrir que Karl Marx estava errado: bom mesmo é a posse individual de bens materiais. O moleque não divide seus brinquedos com ninguém; tudo ele grita: “É meu, é meu!” Quando o tio Rina chega, ele vem pro colo e custa a largar. É a lata do pai — confira você mesmo na foto abaixo.

E agora, meu irmão acaba de me ligar dizendo que o próximo filho vai ser um filho: vem aí outro piruzinho pra completar o estoque. Juscelino deve estar contente: vamos povoar o oeste brasileiro!   

jingle bells

jingle bells

o pai do enrico e o avô do enrico (quando era apenas pai)

o pai do enrico e o avô do enrico (quando era apenas pai)

ZÉ LAYA E A VEJA

Outubro 7, 2009 por longedomar
o sono dos justos

o sono dos justos

Como já dizia o Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo. Desde a semana passada, a repartição onde trabalho recebe a edição semanal da revista Veja, famosa por ser um dos principais canais de comunicação da sangrenta didatura militar (1964 – 1985), da direita conservadora, dos “h0mens de bem” e outros adjetivos nobres da conjuntura brasileira. Há muitos anos que não leio essa revista, porque a gente faz faculdade, aprende as coisas, fica sabendo dos bastidores e segredos dos governos e sua relação com os jornalões… e perde a confiança na imprensa. Em todos casos, sem ter nada melhor com o que empregar meu tempo, fui folhear a tal revista.

E lá estava um editorial sobre o trabalho da repórter Thaís Oyama, escalada pra acompanhar o caso do golpe militar em Honduras. “Lá vem”, pensei. E não deu outra. Lendo o texto a gente tem a impressão que está em 1972, no auge do ponto mais sangrento da ditadura, quando a tortura comia solta, a imprensa trabalhava sob o chicote da censura militar e era obrigada a dizer amém pros fardados pra sobreviver. Veja só não usa termos como ”subversivo”, “vermelho” e “comunista” para descrever Zé Laya. Mas a essência do pensamento direitista e retrógrado está toda lá.

Pra começar, a revista chama o golpista Roberto Micheletti — de quem obteve uma entrevista exclusiva — de “presidente interino”. Aliás, esse pecado não é exclusivo da vetusta publicação da Editora Abril; toda a imprensa brasileira caracteriza o governo Michê como “interino” ou “governo de fato” (1). Na entrevista, o ditador revela que Zé Laya está agindo com apoio de Hugo Chávez e, sem apresentar prova alguma, afirma que ambos têm ligação com o tráfico de drogas. Veja banca a informação sem nenhum questionamento.

Não sobram, evidente, ataques ao governo brasileiro, que abrigou o bigodão na embaixada em Tegucigalpa — chamado de “cafofo” pela revista. Na opinião de Veja, Lula, Amorim e seus asseclas estão se metendo em assuntos internos de Honduras. Esse argumento não tem credibilidade por um motivo simples: Honduras, com um golpista no poder, não é no momento uma democracia. Seria intromissão externa se o presidente hondurenho tivesse sido eleito pelo povo e fosse reconhecido pela comunidade diplomática internacional. Não há nenhum representante sequer de governo algum ou organismo internacional algum em todo o planeta que reconheça Michê como representante legítimo do povo hondurenho. Assim, a publicação prefere nadar contra a maré da opinião pública internacional do que reconhecer o óbvio.

Um detalhe chama a atenção: no editorial, publicado na página 12, a revista diz que mandou sua repórter para cobrir a crise num ”pequeno e paupérrimo país da América Central”. Veja pretende assim nos fazer crer que não haveria motivos para o Brasil se meter em “assuntos internos” de Honduras, já que se trata de um país insignificante. Tão insignificante que a publicação dedica sete páginas ao bigode deposto, enquanto o grande assunto da semana no Brasil — o cancelamento do Enem e toda a confusão do roubo das provas (2) — mereceu apenas duas páginas. Metade das quais foi preenchida com publicidade. Assim, fica fácil perceber que a revista pretende atingir seus alvos de sempre: Hugo Chávez e o goverrno Lula.

O editorialista termina seu texto dizendo que sobra a “certeza de que Honduras sob Micheletti tem um governo que se reconhece como de exceção, interino e determinado a devolver o país à democracia plena”. Isso depois de informar que Michê teve, na juventude, uma namorada paulista e quase casou com ela (3). Pra dar um verniz de “imparcialidade”, Veja aponta o “único erro” dos militares: ter deportado Zé Laya pra Costa Rica. Na opinião da revista, todos os outros atos ditatoriais da milicada hondurenha foram baseados na constituição do país. Os fins justificam os meios. Mesma desculpa que Golbery e cia usaram a vida toda pra legitimar 31 de março de 1964, a sexta-feira 13 de dezembro de 1968 (AI-5) e todo o resto. 

Enquanto isso, a crise está tomando um desfecho, ao que tudo indica, tranquilo: as agências de notícias informam que Michezão, pressionado pela comunidade internacional, já admite devolver o poder em breve ao bigodudo.

Se tudo terminar bem, o Brasil — cuja liderança política começa a extrapolar os limites da América Latina — terá essa vitória debitada em sua conta. O que contraria os interesses da imprensa brasileira, já fechada com Serra-2010. Não que Zé Laya ou Lula sejam flores que exalem perfumes agradáveis. Mas que existe uma “torcida” pro trem desandar em Honduras e o Brasil sair do episódio com o filme queimado, não resta dúvida.

 

(1) O Estadão, engraçadamente, grafa “governo de facto”, quando o novo acordo ortográfico da língua portuguesa que entrou em vigor há dez meses aboliu esse cê-zinho que ainda era usado em Portugal.

(2) Aliás, a história do Enem é ótima, com uma gráfica privada contratada pelo governo no centro de toda a lambança. A tal gráfica pertence ao grupo que controla a Folha de S. Paulo, mas isso não sai nos jornais.

(3) Oh, que meigo, o ditador golpista tem coração e é capaz de se apaixonar.

O DOIDO DE ANÁPOLIS

Outubro 6, 2009 por longedomar

Não sei porque, mas me lembrei do doidinho que tinha em Anápolis há muitos anos. Eu tinha dado 13 voltas ao redor do sol quando fomos morar numa casa simples porém honesta na Avenida Contorno, no Centro. Inclusive, outro dia eu visitei essa casa… bom, mas aí é assunto pra outro post. Eu fazia a sétima série no Couto Magalhães. Estudava de de tarde, portanto não precisava madrugar.

Porém, isso não era garantia que eu podia acordar tarde. Todos os dias, sem exceção, por volta de seis da manhã, um rapaz duns vinte e poucos anos começava a gritar: “Oi! Oi! Oi! ÔÔÔÔÔIIII!!!” — Até que alguém (geralmente minha mãe) abria a janela e atendia: “Que é?” Ele então perguntava: “Quantas horas?” Minha mãe respondia e ele ia embora.

Nunca entendi esse mistério. Quem seria esse cara? De onde vinha? Pra onde ia? Eu e meus irmãos acordávamos, mas raramente a gente tinha coragem de abrir a janela. 

Uma vez ele começou a gritar. Gritou, gritou, gritou até ficar rouco. Acho que minha mãe estava no banho ou algo assim… o doido gritava, esgoelava que nem doido. E nada. Enquanto minha mãe não abriu a janela e perguntou o que ele queria — as horas, claro —, o coitado não parou de gritar. Eu, embaixo das cobertas, ficava fascinado com aquilo.    

 O mistério persiste até hoje na minha memória. Será que esse cara tá vivo, depois de tantos anos? O que será que ele faz? Será que morreu? Será que é doido mesmo? Ou vai ver que era alguém simplesmente zoando? Nunca vou saber.

1×1

Outubro 5, 2009 por longedomar

Botafogo e São Paulo fizeram, no domingo passado, um dos clássicos mais disputados da história dos dois times. O jogo terminou em 1×1. A equipe carioca abriu o placar no início da partida, com um forte chute quase do meio do campo. Os são-paulinos empataram no final do segundo tempo, com um gol de falta.

A partida foi realizada em uma casa de Taguatinga Norte. Como não havia espaço adequado, tipo um “Estrelão”, os atletas tiveram que jogar no chão da sala, tendo as lajes como limite. O Botafogo foi treinado por mim, e atuou no 4-3-3. O mesmo esquema foi adotado pelo São Paulo, treinado pelo Caio, 7 anos — filho da minha amiga Crisleine.

Caio ganhou um jogo completo de botão, com 12 times, de aniversário, em dezembro passado. Eu que dei o presente. E nunca havia jogado com ele, o que se consistia em motivo de frustração por parte do garoto. “Pô, Rinaldo, a gente nunca jogou!”, falou ele durante o almoço de domingo. Insistiu tanto que acabei cedendo. Eu tava meio com sono e um pouco indisposto, mas quando ele trouxe aquela caixona pra sala e foi tirando os times de botão lá de dentro, todos eles arrumadinhos, cada um dentro dum saquinho plástico… o goleiro… as traves… as bolinhas pretas… tudo isso foi me abrindo as cortinas da memória e minha infância se vislumbrou de repente. Não resisti.

Até que joguei bem — apesar da pouca experiência do adversário, um moleque que eu vi na barriga da mãe. Fiz o gol num chute certeiro. Meu problema é que eu fazia muita falta, o que acabou propiciando que o Caio fizesse o gol de empate no final do jogo. Pura sorte. Em todos casos, (re) descobri que existem poucas alegrias mais recompensadoras na vida do que ver a bolinha balançando as redes (de plástico) do adversário após o clássico grito: “Pra gol!”

DE VOLTA PRA CASA

Setembro 22, 2009 por longedomar

A ideia era ótima. Mas o resultado foi triste. A “volta da Legião” ou o “tributo a Renato Russo” ou a “grande festa do rock Brasília” ou lá o que seja não passou de um espetáculo vergonhoso, onde sobraram a falta de profissionalismo da produção, desorganização e muito constrangimento.

Pra começar, não há Legião Urbana sem Renato Russo. Isso foi deixado claro pelo próprio Marcelo Bonfá no vídeo de abertura do show, que foi exibido no telão — a melhor coisa da apresentação, diga-se. Misturando imagens de shows, entrevistas, notícias da morte de Renato e os ensaios da banda que se apresentou domingo, com depoimentos do Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, o vídeo terminava com uma frase do ex-vocalista em algum show antigo: “na verdade, a Legião Urbana são vocês” — apenas uma licença poética retórica pra permitir que muita gente, inclusive alguns jornais sérios, apontassem o show como a “volta da Legião”. Ou seja, jogaram com a dubiedade.

Não li em nenhum jornal a informação de que a EMI — gravadora que detém os direitos sobre a obra da banda — só liberou oito músicas. Portanto, as escolhidas seriam as óbvias: “Pais e filhos”, “Que país é esse” etc. A banda de acompanhamento incluía três uruguaios: um no baixo, um nos teclados e outro na guitarra de apoio. De cara, André Gonzales, vocalista do Móveis Coloniais de Acaju, entrou cantando “Tempo perdido”. Pulava o tempo todo e fazia um gestinho meio ridículo com a mão pedindo pra galera acompanhar. Pedido inútil, todo mundo gritava a letra do começo ao fim. Em seguida, o uruguaio Sebastian Teysera, tentando disfarçar o portunhol, atacou “Quase sem querer”, com um solo “fodão” de guitarra no fim: gente, o Dado aprendeu a solar! Na sequência, Toni Platão, ex-vocalista do Hojerizah, interpretou “Eu sei”. Gostei dessa. E aí foi a vez de Marcelo Bonfá assumir os vocais de “Pais e filhos”. Gozado que ele também fazia o inútil pedido pra todo mundo cantar junto. Se não houvesse vocalista nenhum em qualquer das canções, o público entoaria as letras do mesmo jeito. Tem uma boa voz, é afinadinho o baterista.

Em “Ainda é cedo”, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone acompanharam a banda. No final, um duelo de guitarras entre o líder dos Paralamas e Dado Villa-Lobos, no melhor estilo “guitar hero”, descaracterizou completamente a música. A Legião nunca foi de solos, não era a praia da banda e essa era uma das características que me atraíam como fã e músico; o pós-punk dos anos 80 tinha uma guitarra mais minimalista, mais seca e limpa. Enfim… talvez essa seja uma discussão estética à parte, talvez eu esteja sendo muito ranzinza, mas em todos casos, achei desnecessário. Sem contar que a guitarra do Herbert estava altíssima, com distorção durante a música toda, incomodou um bocado. No final, Dado cantou um trecho de “Gimme Shelter”, dos Stones, o que Renato Russo sempre fazia.

E aqui eu aproveito o gancho pra falar da qualidade técnica do som. Os microfones falhavam direto, os PAs estavam com mau contato, a guitarra do Dado falhava, o que o deixava visivelmente irritado… sem contar outros probleminhas de produção de palco. Uma homenagem desse tamanho merecia um tratamento mais profissional.

O melhor de tudo, no entanto, foi o ”microfone do Renato”: um pedestal bem no centro do palco com uma rosa branca pendurada. O microfone estava desligado e todos os cantores convidados usavam os locais destinados a eles, ou seja, na “periferia” do palco. O centro estava simbolicamente reservado para o fantasma do ex-vocalista.

Pois quando entra Phelippe Seabra pra cantar “Geração coca-cola” — depois de outro uruguaio interpretar “Será” —, qual microfone que ele escolhe? Óbvio que foi o da rosa. Alertado discretamente por Dado, o vocalista da Plebe Rude mudou de lugar e bradou os versos do “hino punk contra a ditadura” — não sem antes destilar seu discurso com aquele verniz de esquerda de playboyzinho do Lago Norte.

Aí veio o grand finale. Óbvio, lógico, evidente que seria “Que país é esse” com todos os vocalistas no palco. Tava tão previsível isso. Um dos convidados pra esse momento foi Loro Jones, ex-guitarrista do Capital Inicial (banda que não esteve presente porque exigiu um cachê muito alto, embora a versão oficial seja que Dinho Ouro Preto pegou a tal gripe do porco). Loro protagonizou o momento mais bizarro e constrangedor: como tinha gente demais, não sobrava microfone pro pobre. Então, obviamente, ele se dirigiu ao microfone da rosa branca. Que estava desligado. Ele tentava ligar o bicho e nada. Bêbado que só, mexia, mexia e nada. Alguém no palco alertou o Loro e ele foi dividir o microfone com algum outro vocalista. Mas ele precisava de mais espaço: voltou a espantar o fantasma de Renato Russo no tal microfone central: mexia, bulia no bicho e nada. Isso tudo no meio da música. Nisso um roadie entrou no palco com aquele jeito de roadie — correndo agachadinho — e deu uma chamada no Loro, que ficou puto e mandou-lhe um safanão! Genial. No final, Seabra gritou algo como “Viva Legião! E viva a Plebe também, né, galera”. Dado completou dizendo que estava muito feliz por tocar de novo em sua cidade. A cidade que ele renegou durante vinte anos.

No fim das contas, as 30 e tantas mil pessoas que estavam na Esplanada adoraram. Elas estavam com sede disso e foi isso que a banda deu. A crédito da produção, deve se dizer que em nenhum momento eles anunciaram o show como a “volta da Legião”; sempre era a “atração surpresa” — embora, como eu já observei, houve um joguinho meio dúbio em cima disso. Teve gente chorando de emoção, adolescentes deslumbrados por estarem vendo a lendária “Legião”, trintões e quase-quarentões suspirando e lembrando os anos 80… foi uma celebração, uma festa, uma catarse. Pouco importavam os problemas técnicos e os deslizes imperdoáveis da produção. Menos ainda importava a filosofia equivocada de fazer um show-tributo com cara de “retorno” da banda. Pouco importava a escolha das músicas mais óbvias — aliás, importava sim, mas eu como fã ardoroso e fiel da Legião, escolheria outras, se fosse realmente obrigado a fazer um show desses. Parafraseando Paul McCartney, “enquanto Renato Russo estiver morto não há volta da Legião”. Mas o povo não tava nem aí pro espetáculo dantesco, vergonhoso, triste. Eu senti vergonha de assistir.

Mas tudo bem: deixa a galera ser feliz, mesmo que seja com pouca coisa. Repito:  a ideia era ótima. Mas a catástrofe mostrou que se houvesse uma produção no mínimo profissional e umas correções de conceito, o resultado poderia ter sido bem melhor.

Sei que há problemas de relacionamento, mas o mais injustiçado da história toda foi o Renato Rocha. O cara que criou algumas das melhores linhas de baixo da história do rock brasileiro (ouça “O Reggae”, “Acrilic on canvas”, “Perdidos no espaço” e diga se não tenho razão) e que gravou os discos mais legais da Legião merecia no mínimo uma menção, quanto mais um convite pra participar de uma música que fosse. Serviria ao menos pra jogar pra plateia. 

E no fim, o melhor comentário foi o de um amigo meu: “se chamasse o vocalista do Catedral pra substituir o Renato, seria perfeito”. Só mesmo com uma dose generosa de ironia pra aceitar uma homenagem desta.  legiao no porao

 

 

 

 

 

 

A foto é uma “cortesia” do Globonline; crédito para Licias Santos

SUPERQUADRA NO PORCÃO DO ROCK

Setembro 21, 2009 por longedomar

Quando fiquei sabendo que as três últimas bandas do palco pílulas de sábado no Porão do Rock seriam Superquadra, Watson e The Pro — nessa sequência — pensei: “oba, um motivo pra ir ver o festival”. Emboras que ver shows desses grupos pela cidade não seja difícil e é sempre mais confortável assistir a uma apresentação num lugar fechado, com ingresso pago (público selecionado) e com menos sensação de perigo. Ou seja, eu ainda estava na dúvida se ia ou não. No dia seguinte, recebi um telefonema que deletou a dúvida da minha mente confusa e lenta: eu seria o baixista do Superquadra nesse show.

Chegamos ao lugar na hora que nos falaram pra chegar: pouco antes de nove. Acontece que por algum mistério, os shows estavam adiantados. Ou seja, estávamos um tiquinho atrasados. Wilton (guitarra) e Jeferson (bateria) chegaram em cima da hora, com os técnicos de som já em trabalho de parto. Mas o show foi bacana. Cláudio Bull estava vestido de forma a representar todas as fases do pop: uma camiseta colorida (psicodelia anos 60), um blazer preto por cima (anos 80), uma calça clubber (anos 90) e um tênis anos 2000. Wilton também foi de blazer. Abrimos com uma música nova chamada “Lestat”. Em seguida, “2, 3 baladas”, uma das mais contagiantes do Superquadra. Teve ainda “Atlântico”, “1000 ondas elétricas” e outras músicas novas, além de “Saída Sul”. Essa, além de “baladas”, teve a participação dos saxofonistas Pedro Victor e Zé Henrique, da novata banda Meias Descoloridas, que você ainda vai ouvir falar.

O palco pílulas estava de frente pra Catedral. O céu negro imenso rugia silenciosamente acima das nossas cabeças. Eu virava o pescoço e via os prédios do Setor Bancário Sul; virava pro outro lado e via os ministérios. E eu tocando ali. É realmente um trem meio mágico, uma emoção esquisita, um sentimento gostoso, um troço meio inexplicável que sobe por dentro da gente e nos leva a algum lugar do inconsciente. Foi muito lindo.

No finalzinho do show (cada banda tinha meia hora), alguém da mesa soprou que tínhamos tempo pra mais uma  música. Iríamos tocar “As histórias de amor sempre acabam” na versão original, que dura trinta segundos. Wilton tocou a introdução… e nada. Não tínhamos som. Desligaram tudo. Um dos técnicos de som saiu desplugando os cabos das guitarras e baixo dos amplificadores enquanto outro tirava a estante de pratos da bateria do Jeferson… isso no meio da música! Realmente não entendi, porque pelo cronograma que foi passado pro produtor da banda, os shows estavam quinze minutos adiantados. Não me preocupei com isso; eu já tinha tocado na Esplanada.

Quem acompanha esse blog (duas ou três pessoas) deve se lembrar que há dois meses eu participei como integrante da banda de acompanhamento do Beto Só num show em Curitiba. Lá, os técnicos de som do evento só faltaram nos pegar no colo. Eram quase como roadies da banda. Depois de Curitiba, meu conceito de equipe de palco mudou. Voltar pra Brasília e enfrentar os discípulos do Phú expulsando a gente do palco foi meio dose. Eu nunca levei fé nesse festival — como espectador — e agora, vendo como são os bastidores, é que desanimo mais ainda. Mas tudo bem: eu toquei na Esplanada.

Não, não tenho fotos do show. Cacem por aí em blogs pelo google que vocês devem achar.

DUAS COISAS

Setembro 21, 2009 por longedomar

Tem duas coisas pra eu falar sobre o Porão do Rock. Uma foi o show do Superquadra, que eu toquei. A outra foi a noite de domingo (mais conhecido como ontem, do meu ponto de vista, já que estou escrevendo na segunda-feira), onde rolou um tributo ao Renato Russo, ou a volta da Legião, ou o que quer que seja que aconteceu no palco importante do festival.

Preciso me inspirar pra escrever — principalmente sobre o segundo tema.

BICHOS

Setembro 3, 2009 por longedomar

Como era mesmo aquele poema do Bandeira? Que ele via um bicho catando comida no lixo e no fim não era um cão, não era um gato, não era um rato: era um homem…

Pois trabalhar nesse Setor Comercial Sul me deixa deprimido. Aqui, bem em frente à secretaria, se juntam hordas de garotos e garotas de todas as idades pra fumar crack. Ficam o dia inteiro fumando. Ninguém dá bola. As pessoas passam, a polícia passa, tudo passa e eles ficam lá. Tem uma menina que está grávida e parece que não toma banho desde que nasceu: pele encardida, roupas imundas, anda descalça o tempo todo procurando restinhos de crack pelo chão.

O bicho do Manuel Bandeira caçava comida; esses vivem em função das drogas. Estão abaixo da condição de animais.